PERDA DO GRAU DE INVESTIMENTO: NA PRÁTICA, COMO ISSO PODE ME AFETAR HOJE?

Arnaldo é um funcionário dedicado. Guarde o nome de Arnaldo.

Uma agência de classificação de riscos anuncia a perda do grau de investimento pelo Brasil.

No dia seguinte, o dólar dispara.

Ricardo é empresário. Um insumo fundamental para o seu negócio é importado e indexado ao dólar. O custo de produção aumenta, e Ricardo se vê obrigado a elevar seu preço de venda.

As vendas caem, assim como a margem de lucro.

Os estoques crescem.

O veredicto: a produção precisa diminuir.

Lembra daquele funcionário dedicado, o Arnaldo? Sobrou para ele, e outros mais.

Era uma empresa familiar. Muito humano e solidário com seus funcionários, o empresário Ricardo chama a todos, um a um.

Faz questão de justificar-se.

Chegou a vez de Arnaldo, o último da fila.

Arnaldo também tem as suas justificativas. Não são muitas, mas são todas as necessárias. Arnaldo precisa trabalhar para comer. Para sustentar sua família.

“Como explicar para Arnaldo o motivo de sua dispensa?” – pensou Ricardo.

“O objetivo aqui não foi sempre produzir o máximo no menor tempo possível. É o que eu faço!” – se adiantou Arnaldo.

Existem situações que não podem ser explicadas com palavras. Ricardo sentiu que não poderia simplesmente afirmar que a produção seria reduzida. Esse argumento é intragável para todos aqueles que querem e precisam trabalhar.

Muito menos poderia Ricardo explicar que essa decisão foi tomada após um novo aumento do dólar, induzido pelo anúncio de uma tal agência de classificação de riscos, por pessoas que talvez nunca sequer pisaram no Brasil.

Com poucas palavras, um sorriso de canto e um aperto de mão, o máximo que Ricardo conseguiu reproduzir diante daqueles olhos marejados foi um… “até breve, quando as coisas melhorarem eu prometo que ligo para você. Até lá, conte com a minha recomendação para qualquer outra empresa. Desculpe.”


A história de Arnaldo serve para ilustrar o que muitos brasileiros estão vivendo neste exato momento (com a diferença que talvez a maioria deles não conte com um chefe tão sensível assim).

A perda do investment grade foi a principal notícia da segunda semana de setembro de 2015 e causou furor na equipe econômica do governo. Ela foi anunciada pela Standard & Poor’s (S&P), uma das três principais agências internacionais de classificação de risco de crédito (nas outras duas o Brasil não foi rebaixado, pelo menos por enquanto).

Mas o que significa perder o grau de investimento?

Façamos a seguinte analogia com pessoas físicas. Quando uma pessoa tem seu nome inscrito no SPC  – o Serviço de Proteção ao Crédito – ela “ganha” perante o mercado um selo de “mau pagador”. É como se o mercado passasse a ver essa pessoa como “potencialmente incapaz de honrar seus compromissos.”

Como consequência, seu acesso ao crédito é restringido, dificultando a obtenção de empréstimos bancários e financiamentos, salvo sob condições de juros maiores que a média do mercado, ou envolvendo algum bem como garantia, uma vez que, teoricamente, essa pessoa representa um risco muito maior para o credor.

É mais ou menos o que está acontecendo com o Brasil neste momento. Com a perda do grau de investimento o país perde o “selo de bom pagador”, que, em outras palavras, pode ser entendido como: “o Brasil passou a ser um país que apresenta maior risco de calote para os investidores.”

Em linhas gerais os motivos que resultaram nesta perda passam mais pela grave crise moral e política que o país atravessa do que propriamente pela deterioração dos indicadores financeiros.

Embora a credibilidade e a transparência da S&P – e de outras agências – sejam questionáveis (veja nota abaixo), é inegável que a repercussão da perda do grau de investimento foi acusada de imediato pelo mercado. No último pregão da semana do anúncio a moeda norte-americana fechou em R$ 3,87, a maior cotação dos últimos 13 anos.

No estouro da crise de 2008 o banco americano Lehman Brothers era bem avaliado nas 3 agências até poucas semanas antes de falir. Essa falha somou-se a outras, de instituições que também possuíam boas avaliações dias antes dos escândalos que as abalaram. Para se aprofundar no assunto, assista ao interessante documentário Inside Job (2010).

NO QUE MAIS A PERDA DO GRAU DE INVESTIMENTO PODE ME AFETAR?


Para os empregados da indústria e comércio em geral

Como a economia brasileira é muito dependente do dólar, a valorização da moeda norte-americana aumenta o custo de produção local, pressionando os preços e diminuindo o consumo.

Todo assalariado deve ter em mente que a segurança de seu emprego depende da estabilidade da economia. Qualquer evento econômico que estimule uma queda no consumo coloca em risco a empregabilidade.

Uma forma de reduzir as consequências de uma demissão em tempos de crise é a construção de uma reserva de emergência. Se você ainda não tem, leia este artigo que explica as melhores práticas para você construir a sua. :)

Para quem revende produtos adquiridos do (no) exterior

Atualmente muitas pessoas trabalham com a revenda de produtos importados indexados ao dólar. O vigoroso aumento na cotação da moeda prejudica esse tipo de negócio. O custo de aquisição mais alto pressiona as margens de lucro para baixo, principalmente porque pode ser inviável repassar todo o aumento do custo do câmbio ao preço de venda dos produtos.

Neste momento mais do que nunca é necessário focar em ser criativo, visando oferecer mais valor para os clientes, como uma garantia de entrega imediata ou descontos para compras futuras como um prêmio por fidelidade.

Para quem investe em dólar ou em fundos que investem em dólar

A expectativa do aumento imediato do dólar logo após o anúncio da perda do grau de investimento se confirmou. Ela só não foi maior devido a intervenção do Banco Central, que injetou mais de 1 bilhão de suas reservas da moeda no mercado, com a intenção de frear a disparada na cotação.

Mesmo assim, no último pregão da semana em que foi anunciada a perda do grau de investimento, a moeda norte-americana fechou com a maior cotação dos últimos 13 anos. Para quem já possui investimentos em dólar, uma certeza de excelente rentabilidade.

A tendência de aumento permanece para o curtíssimo prazo, mas atenção: moedas não se valorizam indefinidamente, portanto, não são eficazes como investimento para o médio e longo prazo. Como a moeda já está precificada com uma cotação bastante alta, pode não ser vantajoso realizar novos aportes com o objetivo de resgate em prazos maiores que 6 meses.

Para quem precisa de empréstimos e financiamentos

A continuidade da tendência de encarecimento do crédito é outra das possíveis consequências da perda do grau de investimento. Isso porque parte dos empréstimos que o setor bancário realiza no mercado interno são lastreados por recursos captados no exterior.

Trocando em miúdos: os bancos também tomam recursos do exterior, em dólar, e realizam empréstimos com esses recursos no mercado interno. Com o dólar mais caro, naturalmente repassam esse custo aos seus clientes, através de empréstimos e financiamentos com taxas de juros mais elevadas.

Se você puder esperar, adie a tomada de empréstimos e financiamentos. Aguarde por uma reversão na tendência da economia que aponte para uma queda nas taxas de juros.

CONCLUSÃO


É muito comum ouvirmos as notícias econômicas diárias sem nos darmos conta de como elas poderão afetar o nosso cotidiano.

O objetivo desse artigo foi demonstrar como somos afetados, mesmo indiretamente, por eventos econômicos que, aparentemente, estão distantes de nossa vida prática.

Mas que na realidade podem nos causar importantes transtornos no curto prazo.

A boa notícia é que a economia é cíclica (ufa!), onde os ventos que trazem as más notícias são os mesmos que as afastam para bem longe.

E nada melhor que informação para nos prevenirmos de pegar um resfriado, não é mesmo?

Fiquem à vontade para comentar e contribuir com os seus exemplos e experiências.

Image cortesia de Ohmega1982 em FreeDigitalPhotos.net

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Atualização: No dia 16 de dezembro de 2015 a agência de classificação de risco Fitch também anunciou a perda do grau de investimento pelo Brasil. É a segunda das três principais agências de classificação de riscos a tirar o grau de investimento do país, restando apenas a Moody’s, que sinalizou que também poderá rebaixar a nota do país em breve.

Os reflexos negativos na economia se agravarão com essa segunda perda, pois fundos internacionais que investem no Brasil agora estão obrigados por seus regulamentos a retirar o dinheiro investido no país.

O segundo rebaixamento não chegou a ser uma surpresa para o mercado, e esse é um fato que todos devemos lamentar. Reflete a compreensão da realidade de que nada mudou na política fiscal e econômica do país desde o primeiro rebaixamento.

E mais triste ainda é constatar que a letargia do país continua, conduzindo-nos para terceira perda do grau de investimento a qualquer momento.

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Outra atualização: Aconteceu. Em 24 de fevereiro de 2016 foi a vez da Moody’s anunciar a perda do grau de investimento pelo Brasil. Era o último selo de bom pagador que o país detinha.

  • A economia é como um cobertor curto Michela. Quando você cobre a cabeça, fica com frio no pé. A crise atual está afetando a maior parte da indústria, mas algumas empresas, sobretudo as que exportam, estão se beneficiando, pois com o real desvalorizado o preço do produto brasileiro fica atrativo para os estrangeiros. O Brasil exporta muitos alimentos. Talvez ai esteja um dos motivos.

  • Michela Roberta Caldeira Gusmã

    Foi a melhor explicação que li para esse assunto. Sou servidora pública, e com a atual crise, principalmente na cidade onde trabalho, nem o servidor público está seguro…imagino como é estar na pele do Arnaldo…e do Ricardo também, pois existem líderes assim, né?
    Vi em algumas matérias que mesmo com a crise, certos ramos da pequena indústria conseguem se manter, e bem. Como o alimentício, por exemplo. Você concorda com isso, Rômulo?
    Continue assim, auxiliando em nossa Educação Financeira. Parabéns!

  • Rose Lapa

    Muito Interessante! Este artigo é de suma importância para quem quer compreender melhor a nossa situação atual.